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Como o Brasil está perdendo influência no cenário geopolítico

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Em setembro de 2023, o Brasil sediou a cúpula do G20 no Rio de Janeiro com uma pompa que custou dezenas de milhões de reais em logística, segurança e comunicação. As câmeras do mundo inteiro estavam aqui. Líderes de 19 países mais a União Europeia sentaram à mesa. E o que o Brasil levou de concreto para aquela reunião? Uma agenda climática simpática, um discurso sobre fome no mundo e nenhum acordo bilateral de peso que tenha mudado, de fato, a posição do país no tabuleiro global. Saímos do evento com as fotos, mas sem a influência.

Esse episódio resume bem o problema — só que o problema não é a falta de protagonismo diplomático. O problema real é que o Brasil confunde presença com poder. A gente aparece em todas as mesas, fala bonito, assina declarações e volta pra casa sem ter negociado nada que mude preço de commodity, acesso a mercado ou posição em cadeia produtiva global. Presença sem agenda econômica concreta é turismo diplomático. E turismo diplomático, por mais fotogênico que seja, não constrói influência.

1. O país que virou plateia da própria grandeza

Existe um dado que incomoda bastante: a participação do Brasil no comércio mundial de manufaturados caiu de forma consistente nas últimas duas décadas. Em 1985, o país tinha uma participação mais expressiva nas exportações globais de produtos industrializados. Hoje, levantamentos do setor de comércio exterior mostram que mais de 60% da pauta exportadora brasileira ainda é composta por produtos primários — soja, minério de ferro, petróleo bruto. Vendemos matéria-prima para países que nos vendem de volta produto com valor agregado. A China compra nosso minério por X e nos vende aço por 4X. Isso não é parceria estratégica. É dependência com marketing.

O economista Bresser-Pereira chamou esse fenômeno de “desindustrialização precoce” — o país perdeu músculo industrial antes de ter construído a riqueza que normalmente financia essa transição. Outros países passaram por esse processo depois de atingir renda per capita alta. O Brasil fez o caminho inverso: desindustrializou com renda média baixa, ficando preso numa armadilha que limita tanto o poder de barganha comercial quanto a capacidade de projeção tecnológica.

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2. BRICS: clube importante, agenda fragmentada

O Brasil ajudou a fundar o BRICS. Participou de todas as reuniões. Apoiou a expansão do bloco em 2023, quando entraram Arábia Saudita, Emirados Árabes, Etiópia, Egito e Irã. Em tese, o Brasil deveria estar no centro de uma das articulações geopolíticas mais relevantes do século — um contrapeso ao G7 liderado por países do Sul Global.

Na prática, o Brasil dentro do BRICS funciona como o sócio que aparece nas festas mas não assina os contratos. A China e a Rússia têm agenda clara: desdolarização, expansão de influência militar e tecnológica, criação de infraestrutura financeira alternativa ao sistema SWIFT. A Índia joga seu próprio jogo, equilibrando relações com Washington e Moscou ao mesmo tempo. E o Brasil? Oscila. Ora fala em “autonomia estratégica”, ora reafirma alinhamento com o Ocidente, ora tenta não ofender ninguém — e acaba sem credibilidade com nenhum dos lados.

Essa indecisão tem custo concreto. Quando a discussão sobre a moeda comum do BRICS avançou, o Brasil foi o primeiro a recuar publicamente, com o então Banco Central sinalizando reservas técnicas sérias. Resultado: o país ficou de fora do debate real sobre arquitetura financeira alternativa, exatamente o debate que vai importar nas próximas décadas.

3. A China entrou pelo quintal enquanto o Brasil debatia o portão

Em 2024, a China já era o maior parceiro comercial do Brasil há mais de uma década. Mas o dado mais revelador não é esse — é a composição desse comércio. O Brasil exporta commodities para a China e importa painéis solares, baterias, veículos elétricos e produtos eletrônicos. Enquanto isso, as empresas chinesas foram comprando participação em setores estratégicos brasileiros: energia elétrica, portos, mineração.

Não estou dizendo que investimento chinês é inerentemente ruim. O problema é que o Brasil nunca negociou isso com uma estratégia clara de contrapartida. Países como o México e o Vietnã, ao receberem investimento estrangeiro massivo, exigiram transferência de tecnologia, criação de empregos qualificados locais, participação de fornecedores nacionais na cadeia. O Brasil, em geral, negociou na base do “bem-vindo, pode entrar” — sem condicionalidades sérias que transformassem esse capital em desenvolvimento tecnológico genuíno.

Tem um detalhe que exemplifica bem: a maior parte dos parques solares instalados no Brasil nos últimos anos usa painéis fabricados na China. O equipamento chega, a energia é gerada, mas o conhecimento fica do outro lado do Pacífico. A gente opera a tecnologia, não a domina.

4. O que não funciona — e que o Brasil continua tentando

Preciso ser direto aqui, porque esse é o ponto onde mais gente vai discordar de mim:

  • Discurso multilateralista sem agenda econômica não constrói poder. O Brasil é um campeão de retórica multilateral desde os anos 1940. Temos tradição diplomática real, o Itamaraty é uma das chancelarias mais respeitadas tecnicamente do mundo. Mas reputação técnica não substitui capacidade de pressão econômica. Quando os EUA querem algo do Brasil, usam acesso ao mercado americano como alavanca. Quando o Brasil quer algo, usa… discursos bem-redigidos.
  • Tentar ser “neutro” em conflitos geopolíticos não gera influência — gera irrelevância. A estratégia de “não me envolvo” pode parecer pragmática, mas na prática significa que nenhum dos lados te deve nada. A Turquia, por exemplo, usa sua posição ambígua na OTAN pra extrair concessões concretas tanto de Washington quanto de Moscou. O Brasil oscila sem extrair nada.
  • Apostar só em soft power cultural não move o ponteiro. Sim, o mundo adora o Brasil — futebol, carnaval, biodiversidade, a Amazônia como bandeira ambiental. Isso abre portas em reuniões. Não fecha acordos comerciais. Soft power sem hard power econômico é cartão postal.
  • Priorizar agenda interna acima de tudo não é humildade — é abdicação. Toda vez que o Brasil enfrenta uma crise interna — e crises aqui são semestrais — a política externa some da pauta. A China não para de negociar quando tem problema interno. A Índia também não. O Brasil paralisa. E o mundo não espera.

5. Um caso concreto: o acordo Mercosul-União Europeia

Esse exemplo dói porque é o mais longo da história diplomática brasileira recente. As negociações entre Mercosul e União Europeia começaram em 1999. Vinte e cinco anos de rodadas, documentos, declarações de “avanço histórico”. O acordo foi anunciado como concluído em 2019. Em 2026, ainda não está plenamente em vigor — emperrado em questões ambientais, resistência de agricultores europeus e desconfiança em relação às políticas brasileiras para a Amazônia.

O que esse processo revela? Primeiro, que o Brasil não tem poder de pressão suficiente pra acelerar uma negociação quando o outro lado decide travar. Segundo, que a agenda ambiental — que poderia ser nossa maior alavanca de poder — foi tratada por anos como custo político interno, não como ativo estratégico externo. Quando Lula voltou ao governo em 2023 e recolocou a proteção ambiental no centro do discurso, houve abertura real nas negociações. Mas anos de desmatamento acelerado no período anterior destruíram credibilidade que levaria décadas pra construir.

Tem um detalhe que poucos comentam: durante as rodadas mais tensas do acordo, representantes europeus chegaram a pedir dados de rastreabilidade de cadeias produtivas brasileiras que o próprio governo não conseguia fornecer com agilidade. A infraestrutura de dados do agronegócio brasileiro — que é gigantesca em volume — ainda tem lacunas sérias em transparência e rastreabilidade que custam caro em negociações internacionais.

6. A Amazônia como poder — se a gente aprender a usá-la

Aqui tem uma virada possível, e eu prefiro não terminar só com diagnóstico de fracasso. O Brasil tem um ativo geopolítico único que nenhum outro país do mundo possui na mesma escala: a maior floresta tropical do planeta, dentro de um país com soberania democrática consolidada. Isso vale muito mais do que a gente cobra.

Países do Oriente Médio transformaram petróleo — um recurso finito e poluente — em poder geopolítico real. Construíram fundos soberanos, compraram clubes de futebol europeus, financiaram universidades, investiram em infraestrutura global. O Brasil tem carbono florestal, biodiversidade genética, água doce e capacidade de geração de energia renovável em escala que o mundo vai precisar cada vez mais nas próximas décadas.

A questão não é se esse ativo tem valor. Tem, e imenso. A questão é que o Brasil ainda não aprendeu a transformar recurso natural em poder negociado. Ficamos esperando que o mundo nos pague por conservar a floresta por bondade. Poder geopolítico não funciona assim — você cobra, negocia, condiciona. A floresta parada não vale nada. A floresta como moeda de troca em acordos de tecnologia limpa, acesso a mercados e transferência de conhecimento — essa vale muito.

7. O que o leitor que acompanha isso pode fazer — agora

Sei que parece distante — “o que eu tenho a ver com geopolítica?” Mas influência externa começa em escolhas domésticas. Três passos pequenos, concretos, pra essa semana:

  • Leia uma fonte de política externa que não seja só notícia doméstica. O boletim do CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) ou os relatórios do Ipri, ligado ao Itamaraty, são gratuitos e escritos em português. Quinze minutos por semana muda a perspectiva sobre o que acontece lá fora.
  • Da próxima vez que você consumir notícia sobre acordo comercial ou cúpula internacional, pergunte: o Brasil saiu com o quê de concreto? Não o que foi dito. O que foi assinado, o que mudou de fato. Essa pergunta simples é o antídoto contra o turismo diplomático.
  • Se você trabalha em empresa exportadora, importadora ou com qualquer relação com mercado externo, coloque “agenda geopolítica” no radar do planejamento. Não como previsão do futuro — ninguém sabe o futuro. Como variável de risco que afeta câmbio, acesso a mercado e custo de insumo. Quem ignora isso vai ser surpreendido. Quem acompanha, pelo menos tem tempo de reagir.

O Brasil não está condenado à irrelevância geopolítica. Mas está desperdiçando ativos reais por falta de estratégia consistente — e isso tem custo que aparece no câmbio, no preço dos produtos importados, na velocidade com que tecnologia chega aqui, no tipo de emprego que o país consegue gerar. Geopolítica não é assunto de diplomata. É o pano de fundo de tudo que acontece na sua vida econômica cotidiana.