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Por que o declínio americano está mudando a geopolítica

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Em março de 2025, o dólar caiu abaixo de R$ 5,70 por algumas horas — não por força do real, mas porque operadores no mundo inteiro estavam vendendo ativos americanos ao mesmo tempo. Títulos do Tesouro dos EUA, que historicamente funcionam como porto seguro em momentos de pânico, estavam sendo jogados fora junto com as ações. Isso não tinha acontecido assim desde 2008. Quem acompanhou aquele pregão em tempo real viu algo diferente: o mundo não estava correndo para os Estados Unidos. Estava correndo de lá.

A maioria das análises que circulam por aí trata o declínio americano como se fosse um problema americano — algo que os EUA precisam resolver internamente, uma questão de política fiscal, de liderança, de polarização doméstica. Mas o ponto que quase ninguém está dizendo em voz alta é este: o declínio americano não é uma crise dos Estados Unidos. É uma reorganização do mundo inteiro. E o Brasil está no meio disso, queira ou não.

1. O que “declínio” significa de verdade — e o que não significa

Antes de qualquer coisa, convém limpar o terreno. Declínio não significa colapso. Os EUA ainda têm o maior PIB nominal do planeta, o exército mais caro da história, e o dólar ainda responde por mais de 55% das reservas cambiais globais — número que o FMI acompanha de perto e que vem caindo, lentamente, há duas décadas. Em 2001, essa fatia era de quase 73%.

Declínio, aqui, significa algo mais preciso: a capacidade de um único país ditar as regras do jogo está diminuindo. Não porque os EUA ficaram mais fracos em termos absolutos, mas porque outros ficaram mais fortes — e, o que é mais importante, mais dispostos a agir de forma independente.

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Eu fiquei rodando nessa confusão conceitual por bastante tempo. Lia análise que dizia “os EUA estão acabados” e outra que dizia “os EUA ainda dominam tudo” — e as duas pareciam ter dados para se sustentar. O problema é que as duas estavam respondendo perguntas diferentes. Uma media poder absoluto, a outra media poder relativo. São coisas distintas.

2. O BRICS não é um bloco — é um sinal

Quando o Brasil entrou no BRICS lá atrás, muita gente aqui no país tratou o assunto como protocolo diplomático: reunião de cúpula, foto, comunicado. Nada de muito concreto. Mas a cúpula de Kazan, em outubro de 2024, foi diferente. Pela primeira vez, o grupo admitiu novos membros em escala — Arábia Saudita, Emirados, Etiópia, entre outros — e começou a discutir abertamente mecanismos de pagamento que contornam o sistema SWIFT.

Isso não significa que o dólar vai acabar semana que vem. Significa que países que antes nem cogitavam essa conversa estão sentados à mesa. E a Arábia Saudita — que manteve um pacto de décadas com os EUA baseado em vender petróleo exclusivamente em dólar — está nessa mesa. Isso é estrutural, não conjuntural.

O Brasil, nesse contexto, está numa posição estranha e valiosa ao mesmo tempo: tem laços históricos com o Ocidente, mas exporta commodities que a China compra em volumes crescentes. Em 2024, a China foi destino de mais de 30% das exportações brasileiras, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Os EUA ficaram bem abaixo disso. O mapa econômico real do Brasil já é multipolar — o mapa político ainda está tentando se ajustar.

3. Como a multipolaridade chega no bolso do brasileiro

Aqui é onde a coisa fica concreta. Multipolaridade não é só assunto de diplomata. Ela afeta o câmbio, o custo do crédito, o preço do combustível e a decisão de onde uma montadora vai instalar a próxima fábrica.

Pensa comigo: quando os EUA anunciaram tarifas pesadas sobre importações em 2025 — o pacote que ficou conhecido como “tarifaço de abril” — o primeiro efeito foi uma valorização do dólar contra quase todas as moedas emergentes. O real caiu. A inflação de itens importados subiu. Produtos com componentes eletrônicos — de celular a eletrodoméstico — ficaram mais caros nas prateleiras das grandes redes de varejo brasileiras antes mesmo de qualquer ajuste de estoque.

Mas o segundo efeito, menos comentado, foi que a China começou a redirecionar exportações que antes iam pra os EUA. Produtos mais baratos inundaram outros mercados — incluindo o Brasil. Pequenas indústrias nacionais de bens de consumo sentiram isso na pele, com concorrência de produtos asiáticos a preços que não conseguiam competir.

Esse é o paradoxo da multipolaridade para o Brasil: ela pode abrir portas e fechar outras ao mesmo tempo, no mesmo trimestre.

4. O que não funciona como análise sobre esse tema

Tenho lido bastante sobre isso nos últimos dois anos — livros, papers, newsletters especializadas — e há alguns padrões de análise que simplesmente não se sustentam. Vou ser direto:

  • Torcer por um lado. Tanto o “vai viver o declínio americano” quanto o “os EUA vão se recuperar e tudo volta ao normal” são posições emocionais disfarçadas de análise. O mundo não funciona em narrativa de heróis e vilões, e quem analisa geopolítica assim vai errar a maioria das apostas.
  • Tratar a China como o novo hegemon óbvio. A China tem problemas sérios: crise imobiliária que ainda não foi absorvida completamente, população envelhecendo mais rápido do que o esperado, e uma dependência de exportações que a torna vulnerável exatamente ao tipo de choque que os EUA estão provocando. Substituir um hegemon por outro não é o que está acontecendo.
  • Ignorar os países do meio. Índia, Turquia, Arábia Saudita, Brasil, Indonésia — esses países estão fazendo escolhas táticas que moldam o sistema tanto quanto as grandes potências. Análise que só foca em EUA vs. China perde metade do filme.
  • Achar que o Brasil tem uma posição “natural” garantida. Tem gente que fala como se o Brasil fosse automaticamente ganhar nesse novo mundo por ter commodities e território. Mas posição geográfica e recursos naturais não se convertem em influência política sozinhos — precisam de instituições, de investimento e de estratégia. Isso não está garantido.

5. Um caso concreto: o que aconteceu com o agronegócio brasileiro entre 2018 e 2024

Tem um exemplo que ilustra bem como a multipolaridade já funciona na prática, e o Brasil viveu isso de camarote.

Quando os EUA e a China entraram em guerra comercial a partir de 2018, a China começou a comprar menos soja americana e mais soja brasileira. As exportações do agronegócio nacional dispararam. O preço da terra no Mato Grosso subiu de forma expressiva. Cidades do interior que mal apareciam no mapa econômico passaram a movimentar cifras relevantes.

Parecia uma vitória límpida. Mas não foi simples assim.

O aumento da demanda pressionou a infraestrutura logística — portos, rodovias, ferrovias — que já era precária. O custo do frete interno comeu boa parte do ganho do produtor. E a dependência crescente de um único comprador (a China) criou uma vulnerabilidade nova: qualquer mudança de política em Pequim — uma crise diplomática, uma decisão de ampliar a produção doméstica de proteína — pode derrubar o mercado de forma abrupta.

Em 2024, quando a China desacelerou as compras por alguns meses por conta de estoques altos, o nervosismo no setor foi imediato. A diversificação de mercados, que todo mundo sabia que era necessária, ainda estava incompleta. O Brasil ganhou com a multipolaridade — e ficou exposto por ela ao mesmo tempo.

6. O dólar não vai morrer, mas vai dividir espaço

Esse ponto merece atenção especial porque tem muita confusão circulando. Não existe, no horizonte visível, uma moeda que substitua o dólar nas funções que ele cumpre hoje — reserva de valor, meio de troca internacional, denominador de commodities. O yuan não está nem perto disso: a China ainda mantém controles de capital que impedem que sua moeda circule livremente.

O que está acontecendo é diferente: está surgindo um sistema de múltiplas moedas de uso regional e acordos bilaterais que reduzem a necessidade de passar pelo dólar em certas transações. Brasil e China já testaram isso — há acordos que permitem liquidar parte do comércio bilateral em yuan ou real, sem conversão para dólar no meio do caminho.

Para o brasileiro comum, isso pode parecer abstrato. Mas tem efeito prático: se o dólar perde participação como intermediário obrigatório, o câmbio brasileiro passa a depender menos da política monetária americana — o que pode ser bom em alguns cenários e péssimo em outros, dependendo de como o Brasil gerencia suas próprias contas.

7. O que a Europa aprendeu tarde demais

A Europa passou anos construindo sua segurança energética em cima do gás russo e sua segurança militar em cima do guarda-chuva americano. Quando os dois pilares racharam ao mesmo tempo — em 2022, com a guerra na Ucrânia — o continente descobriu que tinha terceirizado decisões que não dá pra terceirizar.

O Brasil não está nessa posição exata, mas tem seus próprios pontos cegos. A dependência de fertilizantes importados — boa parte deles da Rússia e de Belarus — ficou escancarada durante o conflito ucraniano. O preço do insumo disparou, e o produtor brasileiro pagou a conta. Uma cadeia agrícola que parecia sofisticada revelou uma vulnerabilidade de primeiro mundo: quando a geopolítica muda, o custo de produção muda junto.

Diversificação de fornecedores, investimento em produção doméstica de insumos, acordos de longo prazo com múltiplos parceiros — são coisas que parecem burocráticas até o dia que fazem falta.

8. O Brasil pode escolher — mas precisa escolher logo

Tem uma janela aqui. Não sei exatamente quanto tempo ela fica aberta — ninguém sabe — mas a janela existe. Num mundo multipolar em formação, países que conseguem navegar entre blocos sem se amarrar a nenhum têm espaço de manobra real. O Brasil tem tamanho, recursos e relações históricas que permitem isso.

Mas navegar entre blocos não é o mesmo que não ter posição. É diferente. É ter clareza sobre o que não se abre mão — soberania sobre recursos naturais, por exemplo — enquanto se mantém flexibilidade nas alianças comerciais e diplomáticas.

Isso exige uma qualidade que a política brasileira tem dificuldade histórica de sustentar: consistência de longo prazo. Não dá pra mudar de orientação geopolítica a cada troca de governo. Os países que estão ganhando espaço nesse novo arranjo — Índia, Turquia, Vietnã — têm estratégias que sobrevivem a eleições.


Três coisas pequenas que você pode fazer essa semana:

  • Leia um relatório recente do Banco Central sobre composição das reservas internacionais do Brasil — está disponível no site deles, de graça, e dá uma noção real de como o país está posicionado.
  • Rastreie de onde vêm os principais produtos que você consome regularmente — eletrônicos, roupas, alimentos processados. A cadeia de fornecimento conta uma história geopolítica concreta.
  • Quando ler uma análise sobre EUA vs. China, pergunte: quem são os países do meio nessa história? Se a análise não mencionar nenhum, provavelmente está incompleta.