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Mulheres empreendedoras ganham espaço (e lucro) no mercado

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São 23h12 de uma terça-feira. Enquanto a casa dorme, uma mulher de 34 anos senta na mesa da cozinha — laptop aberto, xícara de café frio do lado — e faz o fechamento do caixa do mês. O negócio dela, uma confeitaria artesanal que começou na pandemia com R$ 800 de investimento inicial, faturou R$ 18.400 naquele mês. Ela não tem sócio. Não tem investidor. Tem uma planilha, um Instagram com 12 mil seguidores e a determinação de quem aprendeu a fazer as contas erradas antes de aprender a fazer as certas.

Essa cena não é ficção e tampouco é exceção. Ela se repete em apartamentos de São Paulo, em fundos de quintal no Nordeste, em pequenas salas comerciais no interior de Minas. O empreendedorismo feminino no Brasil cresceu de forma consistente ao longo da última década — e a tendência não dá sinal de recuo. Levantamentos do Sebrae apontam que as mulheres já representam mais da metade dos novos microempreendedores individuais registrados no país em anos recentes, um número que teria soado improvável vinte anos atrás.

Mas aqui está a tese que a maioria dos artigos sobre o tema ignora: o problema nunca foi a falta de vontade de empreender. O problema foi — e ainda é, em partes — a falta de acesso a capital, rede e credibilidade institucional. Tratar empreendedorismo feminino como uma questão de “empoderamento” e “mentalidade” é, no mínimo, ingênuo. É também uma forma conveniente de desviar a atenção das barreiras estruturais que ainda existem. A mulher que fecha o caixa na cozinha de madrugada não precisa de mais motivação. Ela precisa de crédito com juros razoáveis e de alguém que leve sua planilha a sério.

1. O crescimento que os números mostram — e o que eles escondem

Os dados são animadores na superfície. O Brasil tem uma das maiores taxas de empreendedorismo feminino do mundo entre economias emergentes, segundo relatórios do GEM (Global Entrepreneurship Monitor), que acompanha esse indicador em dezenas de países há anos. Quando você olha a faixa de microempreendedoras individuais — o famoso MEI —, o crescimento é ainda mais visível: nos últimos anos, o número de mulheres formalizando seus negócios nessa modalidade aumentou de forma expressiva, especialmente em setores como alimentação, beleza, moda e serviços de cuidado.

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O que os números não mostram tão facilmente é a diferença de porte. Negócios liderados por mulheres ainda tendem a ter faturamento médio menor, acesso a crédito mais restrito e menor participação em programas de aceleração e investimento-anjo. Pesquisas de mercado mostram que, quando o assunto é captação de recursos via investidores externos, as fundadoras recebem uma fração desproporcional do capital disponível em relação aos fundadores homens — mesmo quando as métricas do negócio são equivalentes.

Isso não significa que o cenário está estagnado. Significa que o crescimento existe, mas acontece apesar das barreiras, não por ausência delas.

2. Setores onde a virada já aconteceu de verdade

Existem segmentos onde a presença feminina não é mais novidade — é maioria. O mercado de beleza e estética, por exemplo, é amplamente dominado por mulheres tanto na prestação de serviços quanto na fundação de marcas. O mesmo vale para a área de educação infantil, confeitaria e artesanato.

Mas o que mudou nos últimos anos é a qualificação e a escala. Mulheres que antes operavam de forma totalmente informal agora formalizam o negócio, contratam funcionárias, abrem CNPJ, emitem nota fiscal. Uma esteticista que atendia em casa com uma maca dobrável pode, em dois ou três anos, ter uma clínica com três cabines e duas funcionárias contratadas. Esse movimento de formalização e crescimento gradual é silencioso nos grandes noticiários, mas barulhento nos dados do INSS e da Receita Federal.

Há também uma expansão para setores que historicamente eram redutos masculinos: tecnologia, construção civil, agronegócio. O número de mulheres fundando startups no Brasil ainda é baixo em termos absolutos, mas a taxa de crescimento é expressiva. Algumas aceleradoras e fundos de investimento voltados exclusivamente para fundadoras mulheres surgiram nos últimos anos — o que é, ao mesmo tempo, uma resposta à demanda e um reconhecimento explícito de que o mercado geral ainda não distribui oportunidades de forma equitativa.

3. O caso de Joana — um antes e depois sem romantismo

Para tornar isso concreto, pense no tipo de trajetória que se repete com variações pelo país. Joana — nome fictício para preservar privacidade, mas perfil real — trabalhava como assistente administrativa em uma empresa de médio porte em Recife. Aos 38 anos, depois de uma demissão, decidiu transformar o que vendia nas festas de fim de ano — brigadeiros gourmet em caixas personalizadas — em negócio de verdade.

O primeiro ano foi caótico. Ela subestimou o custo do chocolate belga que usava, não embutiu o tempo de produção no preço e vendeu durante três meses com margem negativa sem saber. Quando percebeu, o buraco era de R$ 2.300. Precisou de ajuda de uma amiga contadora para refazer a precificação do zero.

O segundo ano foi diferente. Com o preço correto, ela conseguiu margem de 38% por caixa, passou a atender empresas para presentes corporativos e abriu o MEI. No final do segundo ano, faturou R$ 94.000. Não é um número astronômico, mas é um negócio real, sustentável, que ela controla.

O que funcionou? Ela foi direta: “Parei de vender barato pra agradar e comecei a vender certo pra sobreviver.” O que não funcionou? Tentar crescer rápido demais no primeiro ano, antes de entender os próprios números. A lição é quase universal.

4. O que não funciona — e precisa ser dito

Tem muita coisa sendo vendida como solução para empreendedoras que, na prática, não resolve nada. Aqui vai uma lista sem rodeios:

  • Cursos de mentalidade empreendedora desconectados de finanças: Autoconhecimento é válido, mas não paga boleto. Uma empreendedora que não sabe calcular ponto de equilíbrio vai fechar o negócio independentemente do quanto acredita nele. O mercado de cursos online vendeu durante anos a ideia de que a principal barreira era psicológica. Não é. É financeira e estrutural.
  • Comunidades de networking que só fazem networking: Grupos de WhatsApp com centenas de empreendedoras trocando figurinha podem ser reconfortantes, mas raramente geram negócio de verdade. Rede boa é aquela que conecta você com cliente, fornecedor ou investidor — não aquela que apenas valida o que você já pensa.
  • Linhas de crédito com burocracia inacessível: Existem programas de financiamento voltados para mulheres empreendedoras em grandes bancos públicos nacionais. O problema é que a documentação exigida, as garantias pedidas e o prazo de análise tornam o processo inviável para quem precisa de capital rápido para comprar estoque ou equipamento. O crédito existe no papel. Na prática, chega atrasado ou não chega.
  • A narrativa da “superação individual” como modelo: Toda vez que uma reportagem foca exclusivamente na história de uma mulher que “venceu sozinha”, ela está — involuntariamente — reforçando a ideia de que basta esforço individual. Isso é perigoso porque desresponsabiliza o sistema. A maioria das empreendedoras que cresce tem alguma rede de apoio: família, parceiro, amiga contadora, programa de capacitação. Ninguém cresce no vácuo.

5. Crédito, rede e visibilidade: a trinca que muda o jogo

Se você perguntar para dez empreendedoras o que faltou ou ainda falta para crescer mais rápido, a resposta vai variar nas palavras mas convergir no conteúdo: dinheiro, conexões e ser levada a sério.

Crédito com condições acessíveis ainda é o gargalo mais citado. Algumas fintechs nacionais começaram a oferecer produtos específicos para MEIs e pequenas empresas com análise de crédito baseada em fluxo de caixa — não apenas em garantias físicas. Isso ajuda, mas ainda atende uma fatia pequena do mercado.

Rede de qualidade é construída com tempo e intenção. Participar de feiras do setor, associações comerciais locais e eventos de negócios — mesmo os menores, realizados em centros comerciais de bairro — costuma gerar resultado mais concreto do que firar horas em grupos virtuais. O contato olho no olho ainda abre porta que o direct message não abre.

Visibilidade, por sua vez, passou a ser acessível de um jeito que não era antes. Uma loja no Instagram, um perfil no Google Meu Negócio, avaliações positivas acumuladas — isso substitui, em boa parte, o que antes exigia investimento em mídia cara. Não é solução mágica, mas é alavanca real para quem sabe usar.

6. A questão da dupla jornada — sem eufemismo

Não dá pra falar de empreendedorismo feminino sem falar de carga doméstica. Uma pesquisa do IBGE sobre uso do tempo mostrou, em edições anteriores, que mulheres dedicam significativamente mais horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas do que homens — mesmo quando ambos trabalham fora.

Isso significa que a empreendedora brasileira, com frequência, está gerenciando o negócio com uma fatia menor de horas disponíveis do que seu concorrente homem. A cena da cozinha de madrugada não é romantismo — é a única janela de tempo sem interrupção que algumas mulheres encontram no dia.

Ignorar isso é miopia. Qualquer política pública, programa de apoio ou produto financeiro voltado para mulheres empreendedoras que não considera essa variável está partindo de uma premissa errada.

7. O que está mudando — e por que importa agora

A boa notícia é que a conversa está mudando de tom. Há alguns anos, o discurso dominante era o da inspiração: histórias de mulheres que “venceram” apesar de tudo. Hoje, pelo menos em parte dos espaços de política pública e de negócios, o foco migrou para remover as barreiras — não apenas celebrar quem as superou.

Programas de capacitação que incluem finanças básicas, gestão de fluxo de caixa e precificação têm ganhado espaço. Algumas iniciativas de grandes bancos nacionais criaram linhas específicas com taxas diferenciadas para mulheres à frente de pequenos negócios. Aceleradoras com foco em fundadoras estão surgindo em capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Recife.

Não é suficiente. Mas é diferente do que era há dez anos. E a diferença importa porque cria precedente, gera dados e, com o tempo, normaliza o que hoje ainda parece exceção.

O próximo passo — e ele é pequeno de propósito

Se você é empreendedora ou está pensando em abrir um negócio, não precisa resolver tudo essa semana. Três ações concretas que cabem nos próximos sete dias:

  • Abra uma planilha simples — pode ser no Google Sheets, gratuito — e anote todas as entradas e saídas dos últimos 30 dias. Sem julgamento. Só para ver onde o dinheiro está indo de verdade. Muita coisa vai parecer diferente quando estiver escrita.
  • Pesquise o Sebrae mais próximo de você e veja quais cursos gratuitos ou de baixo custo estão disponíveis neste mês. Especificamente os de finanças e precificação — não os de marketing ou motivação.
  • Converse com uma pessoa que já está onde você quer chegar — não pra pedir favor, mas pra fazer uma pergunta específica: “O que você faria diferente no primeiro ano?” Uma resposta honesta dessas vale mais do que horas de conteúdo genérico.

A mulher que fecha o caixa na cozinha de madrugada já sabe que o caminho é longo. O que ela precisa não é de mais inspiração — é de ferramentas reais e de um sistema que pare de colocar obstáculos desnecessários no caminho. Enquanto esse sistema não muda completamente, o que dá pra fazer é andar com o que tem e saber exatamente onde está pisando.